A negação da política não interessa à democracia." A frase é do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, em sua primeira declaração pública sobre as manifestações e protestos que tomaram as ruas brasileiras em junho. Durante concorrida palestra no campus de São Bernardo do Campo da Universidade Federal do ABC, na tarde desta quinta-feira (18), Lula mostrou preocupação com os ataques que a classe política sofreu durante os atos públicos e alertou para o perigo de uma radicalização institucional parecida com a que ocorreu no Egito nas três últimas semanas. "A podridão da política não pode superar a importância da própria política. Não é crível que se possa fazer política sem partidos. Quer influenciar e quer participar? Não precisa ser nos partidos que existem, criem os seus próprios partidos."
O ex-presidente foi o convidado de honra de um evento sobre política externa, "2003-2013 - Uma Nova Política Externa - Conferência Nacional", organizada pela própria universidade. Por quase uma hora e meia ele louvou os principais pontos da diplomacia de seus oito anos de governo e contou, de forma descontraída, histórias curiosas de seus encontros com líderes mundiais. Não deixou de expressar surpresa pela proporção que os protestos de junho tomaram e disse ter ficado feliz com a capacidade de mobilização do povo brasileiro. "Foi extraordinário o que vimos nas ruas, demonstrou que o povo está ávido por participar da vida política do Brasil, e participar por inteiro. Todo mundo um dia já carregou e já apoiou muitas das bandeiras e das causas que estavam expostas nas faixas. É uma luta incansável para que tudo melhore sempre."
Ao final de sua palestra - a qual, em uma indelicadeza da organização, deixou os jornalista de fora, obrigados a ficar no sol e a acompanhar o discurso por meio de um telão -, reafirmou mais uma vez que ele já tem candidata a Presidência da República em 2014. "Em 2014, não serei candidato. A Dilma (Roussef) é a minha candidata. Se vou voltar? Sim, voltarei para casa para ver o jogo do Corinthians."
O bom humor, entretanto, não impediu que fizesse uma dura crítica aos políticos da oposição quando o assunto foi a saúde. "Engraçado como as coisas são, né? Muitos dos políticos que estão aí bradando contra a situação da saúde no Brasil, contra a falta de recursos e de médicos são os mesmos que ajudaram a derrubar a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras) que destinaria os recursos para a saúde. Se ela existisse ainda hoje, nos quatro anos do meu segundo mandato e nos dois e meio da Dilma, seriam perto de R$ 350 bilhões a mais. E ainda têm coragem de criticar o governo pelas situação atual da saúde."
As farpas continuaram quando se referiu à reforma política, sempre direcionadas à oposição. O alvo do ex-presidente foram as manifestações a favor do fim da reeleição. "Isso é medo. Reduziram o mandato de cinco anos para quatro nos anos 90 com medo de mim. Em seguida, estabelecidos, inventaram a reeleição. Agora estão com medo da Dilma ser reeleita, por isso alguns poucos querem o fim do segundo mandato."
Para Lula, falam em reforma política neste momento é válido, mas desde que haja um amplo debate, com a participação de todos os segmentos da sociedade. Não pode haver tema proibido, mas tem de haver disposição para que os temas mais espinhosos sejam tratados de forma clara. Defende de forma enfática as condições atuais para o exercício da presidência como mais adequado à democracia. "Quatro anos é muito pouco para fazer frente às demandas que um país como Brasil têm. Por outro lado, um mandato e uma reeleição são o suficiente.
A descontração do ex-presidente foi suficiente para superar o tumulto e o grande assédio de universitários ao final do evento, mas ainda houve espaço para uma ponta de ressentimento contra o "uso irresponsável e criminoso da internet". Mostrou-se bastante incomodando com os seguidos boatos sobre a sua saúde e sobre a vida financeira de seus filhos e da presidente Dilma. Reclamou de que sua viagem a Sergipe para visitar o doente governador Marcelo Déda (PT) se transformou em "seguidas idas ao Hospital Sírio-Libanês nas madrugadas para tratar do câncer em estágio avançado". "É leviano e desumano o que esses canalhas e imbecis fazem pela internet. Estou livre do câncer e fazendo o acompanhamento periódico. Se a doença voltar, serei o primeiro a comunicar o Brasil, não tenho motivos para esconder."
Sobre a suposta fortuna de um de seus filhos, ironizou o que chamou de piadas do Facebook. "Dizem que meu filho tem um avião de R$ 50 milhões, que é um dos donos da Friboi, que a filha da Dilma é dona de tantas empresas... Se isso tudo é verdade mesmo, então vou acionar o conselho da Friboi e ver como fazer para que o meu filho Fábio se torne dono daquilo tudo... E o pior é que tem gente que acredita nisso."
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