Nada melhor do que acompanhar uma trama ousada e bem conduzida no horário nobre da Globo. Reviravoltas, personagens brilhantemente interpretados, histórias atraentes, enfim, tudo o que uma boa novela precisa ter. E, desde a estreia, tem ficado muito claro que "Amor à Vida" reúne todos esses requisitos. A obra de Walcyr Carrasco tem abusado dos temas polêmicos e na última semana presenteou o telespectador com um festival de cenas excepcionais.
A sequência em que Aline (Vanessa Giácomo) mostra sua verdadeira face para o público, quando encontra a tia (Mariah - Lúcia Veríssimo), expôs o talento das atrizes e a riqueza das personagens. Apesar de ainda não ter sido muito bem explicada, a trama que envolve a mãe biológica da Paloma (Paolla Oliveira) é repleta de desgraças, assim como a infância de Aline. A secretária de César (Antônio Fagundes) está tramando uma vingança contra toda a família Khoury e tem usado todas as armas para isso.
Após essa importante reviravolta ter ido ao ar no capítulo de terça (30/07), o público continuou sendo presenteado com grandiosas sequências que marcaram uma nova virada na história. Justiça seja feita, a novela tem apresentado ótimas cenas todos os dias desde que começou a ir ao ar, entretanto, não há dúvida de que essa semana foi especial. O ápice foi o momento em que Félix (Mateus Solano) teve sua homossexualidade
exposta por Edith (Bárbara Paz) diante de toda a família. E, sem exagero algum, pode-se dizer que o capítulo de "Amor à Vida" exibido na última quinta-feira (01/08) ---- que atingiu 39 pontos de média e 42 de pico ---- entrou para a história da teledramaturgia. Foi o capítulo que humanizou o vilão, o transformando em vítima momentaneamente, e transformou César na figura mais tenebrosa da trama.
Edith não suportou outra traição do seu marido e conseguiu se vingar dele por causa das fotos tiradas por Aline, onde a secretária flagra o vilão ao lado de seu Anjinho (Lucas Malvacini) ---- cenas, aliás, bastante ousadas. Após Félix pedir o divórcio assim que descobre a traição da esposa, a ex-prostituta conta para todos, na hora do jantar, que ele é gay. Entretanto, o susto maior foi o escândalo da mulher e não a revelação. Tanto César, quanto Pilar (Susana Vieira), Bernarda (Nathalia Timberg) e Paloma demonstraram ter plena consciência da condição sexual do rapaz. O único de fato surpreso foi Jonathan (Thalles Cabral).
Após esse maravilhoso capítulo exibido na quinta, repleto de cenas fortes e bem interpretadas, o público ainda foi presenteado com uma grande cena protagonizada por Antônio Fagundes e Mateus Solano na sexta-feira (02/08), quando César humilha Félix .
Todos os atores envolvidos nas fortes cenas brilharam e Walcyr Carrasco ainda deu um verdadeiro soco na cara do preconceito e do politicamente correto. Foi quase inacreditável ver o que estava sendo exibido em pleno horário nobre da Globo: claras representações em cima da hipocrisia que reina na sociedade em relação à homossexualidade e diálogos que primaram pela ousadia e total verossimilhança. O autor fez questão de tocar em pontos polêmicos; como na conversa entre Paloma e Jonathan (onde o garoto pergunta a respeito da ' suposta herança genética da homossexualidade' que muitos ainda acreditam, mesmo em pleno 2013); na declaração de César em resposta ao questionamento de Pilar ("Você não tem lido sobre o casamento gay, não, é? Sobre as mudanças na sociedade?" "Eu leio. Eu não tenho preconceito. Quem quiser ser gay que seja! Não o meu filho!") e na dura conversa que César tem com Félix ----- a parte mais forte da cena foi a hora em que o dono do hospital San Magno pergunta se o filho é o homem ou a mulher da relação.
Mateus Solano está extraordinário e a entrega do ator é visível. Félix é um grandioso personagem e todas as suas complexidades ficaram expostas depois da revelação. Ele usa o deboche como defesa e o ódio pela Paloma tem muito a ver com sua sexualidade reprimida desde a infância, afinal, o rapaz nunca pôde ser quem ele realmente é. Mateus emocionou ao lado de Paolla Oliveira ---- cena em que Paloma consola e até brinca com o irmão dizendo que só se aborreceria caso tirasse o Bruno (Malvino Salvador) dela ---- e quando contracenou com Nathalia Timberg e Susana Vieira, impecáveis ---- no momento em que Bernarda e Pilar ouvem os desabafos do vilão. O abraço que Jonathan deu no pai, sendo correspondido, também foi outra grande sequência. Aliás, Thalles Cabral tem convencido em seu primeiro papel e merece elogios. Bárbara Paz e Rosamaria Murtinho também brilharam e deram um show, assim como o mestre Antônio Fagundes, que tem interpretado um personagem extraordinário e que faz jus ao seu talento. O telespectador foi presenteado com cenas memoráveis.
Nunca uma novela tratou a homossexualidade do jeito que "Amor à Vida" está tratando. O tal famigerado beijo gay perdeu totalmente o valor e a importância diante do que tem sido apresentado na trama. O autor está tocando, sem leveza ou disfarce, em todas as feridas abertas da nossa sociedade e sua coragem tem ficado a cada dia mais evidente. E, ao contrário do que muitos pensam, o didatismo nos diálogos sobre a homossexualidade foi muito bem-vindo, uma vez que não falta gente desinformada no país, principalmente a respeito desse delicado assunto. Apesar de não ser função da teledramaturgia, um importante serviço tem sido prestado.
Como se não bastasse abordar o autismo (que está precisando voltar a ter a importância que tinha), a bissexualidade, a relação homossexual estável, o câncer terminal e ainda ter criado um vilão gay, Walcyr tem conduzido com muita coragem e competência os conflitos familiares em cima da 'descoberta' da homossexualidade de um parente.
"Amor à Vida" está a cada dia mais envolvente. Walcyr Carrasco escalou um grandioso elenco e tem apresentado uma bem construída história, desenvolvendo os conflitos dos personagens de uma forma ágil, evitando qualquer tipo de barriga ou enrolação. E todas as qualidades da trama ficaram ainda mais expostas nos capítulos mais recentes ---- através de grandes reviravoltas, maravilhosas atuações e impecáveis cenas ----, mostrando para o público e para a crítica que o autor não foi colocado no horário nobre por acaso.

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