A nova animação da DC/Warner, que chega às lojas em agosto, segue o esquema de adaptar HQs e minisséries de sucesso da editora. Nesse caso, o desenho é baseado na minissérie que precede o reboot da editora iniciado em 2011. Em Liga da Justiça: Ponto de Ignição (Justice League: The Flashpoint Paradox, 2013) a trama é centrada no Flash e trata de viagens no tempo e as implicações que uma simples mudança num evento pode causar na continuidade.
Viagens no tempo sempre foram um tema recorrente nos quadrinhos, principalmente com um personagem como o Flash, capaz de se mover em velocidade supersônica. Ao mesmo tempo que pode criar tramas bem divertidas e bons roteiros, também gera um monstro a longo prazo, pois torna-se difícil explicar certos fatos dentro da cronologia dos personagens. A DC sofreu isso ao longo da sua história – tanto que precisou botar ordem na casa nos anos 80 e lançou a maxissérie Crise nas Infinitas Terras.
Se o tema é confuso para aqueles que acompanham as HQs dos heróis, tratar do tema numa animação, que visa atingir também aqueles que estão sendo introduzidos agora no universo dos super-heróis é um erro. Porém, é clara a estratégia da editora em apresentar os heróis modernizados às novas gerações e assumir de vez que estes é que serão os ícones daqui pra frente. Não adianta reclamar: é aceitar e pronto. O problema está no conceito: será que o público que não lê as HQs vai compreender a questão de viagens temporais do Flash? Principalmente com o buraco que há no roteiro do desenho (falo sobre ele mais à frente)?
Fora essa questão básica, a DC/Warner, como sempre, se superou. Lentas ao realizar produções para o cinema com os super-heróis, sendo facilmente ultrapassada pela rival Marvel, no mercado de animações a produtora é imbatível. Publicada no Brasil em cinco edições mensais no início de 2012, mais as repercussões nos títulos de linha, a minissérie Ponto de Ignição é adaptada com propriedade em uma hora e meia de duração do desenho. A trama começa com o assassinato da mãe de Barry Allen, o Flash, quando este ainda era criança. Já como super-herói, ele se lamenta pelo fato de não ter podido ajudá-la até que um ataque da Galeria de Vilões – grupo formado pelo Capitão Frio, Capitão Bumerangue, Onda Térmica, Mestre dos Espelhos, Pião e Flash Reverso – chama a atenção do herói.
Com a ajuda da Liga da Justiça, os vilões são derrotados e presos. Antes de ser levado pelo Superman, Flash Reverso diz que mesmo com supervelocidade, o herói nunca conseguirá salvar todos aqueles que ele ama. Corta. Barry Allen acorda no trabalho e percebe que seu mundo mudou: sem poderes, no meio de uma sangrenta guerra entre atlantes (liderados pelo Aquaman) e amazonas (lideradas pela Mulher-Maravilha), o velocista tenta descobrir o que aconteceu.
Só ao encontrar o Batman é que ele percebe que está num universo com a linha temporal diferente: o Homem-Morcego não é Bruce Wayne, mas o pai dele, Thomas. O crime que deu origem ao Batman, ao invés de tirar a vida dos pais do herói, matou a esposa e o filho. O Ciborgue é o único herói que acredita que uma superequipe pode acabar com a sanguinária batalha entre atlantes e amazonas, mas para a coisa dar certo, ele precisa antes recrutar o Homem-Morcego – o que não é uma tarefa das mais fáceis.
Com a ajuda do Batman, Allen tenta recriar o acidente que lhe concedeu a supervelocidade e, com os poderes recuperados, torna-se um importante aliado na batalha. Um raquítico Superman, enclausurado pelos militares desde a infância e sem a consciência de seus superpoderes é salvo e também tem um importante papel na salvação da raça humana. Com alguns resquícios de memória antiga, Flash precisa correr – com o perdão do trocadilho – para descobrir a causa da alteração cronal e devolver as coisas como elas eram antes que a linha do tempo se ajuste naquela situação definitivamente.
É nesse momento que há o buraco no roteiro, pois não foi mostrado no desenho a cena que gera todos os eventos, deixando-a apenas subentendida. Essa cena poderia ter sido mostrada ao menos em flashback, mas nem isso é feito. Na tentativa de ser fiel aos quadrinhos (essa cena também não é mostrada na minissérie Ponto de Ignição, mas faz parte de uma história solo do Flash publicada em sua revista de linha) o desenho perdeu uma ótima oportunidade de ser mais claro e explicativo. Mas a falha não desmerece o todo, é bom que se diga.
Também merece destaque na animação a participação de Aqualad na mesma forma como ele é apresentado, não nos quadrinhos, mas na animação Justiça Jovem (um jovem pardo, híbrido entre atlante e humano, com a habilidade de manipular a água e solidificá-la, criando armas para si) e que foi incorporado posteriormente à cronologia DC. O desenho tem ritmo e fecha com chave de ouro o “antigo” Universo DC. A partir de agora, podemos esperar os heróis com seus novos visuais, conforme apresentados na série Os Novos 52 (atualmente nas bancas, pela Panini)
A DC já anunciou as novas adaptações para o futuro: Justice League: War (nova megassaga dos Novos 52), Batman: Assault on Arkham (focada no universo dos videogames do Homem-Morcego) e Son of Batman (adaptação da minissérie Batman e Filho que, embora se passe no universo antigo, provavelmente deve sofrer algum “ajuste” para a nova cronologia. Ao contrário dos quadrinhos, onde o reboot da editora foi controverso e causou desconforto, no universo animado esta mudança é bem vinda porque, no fim das contas, é muito bem produzida. Ao menos, o público dos desenhos não precisa jogar fora 70 anos de histórias e lembranças.










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