quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Após adolescente levar disparo de arma de choque, uso da força policial nas escolas é discutida

Aluno atingido por arma taser dentro de sala de aula em Florianópolis nega consumo de drogas


A dona de casa Maísa de Oliveira Ramos, 32 anos, tirou o filho do ensino fundamental da Escola Estadual Daysi Werner Salles, em Capoeiras, região continental de Florianópolis, onde as aulas só foram retomadas na tarde de terça-feira. Ela decidiu fazer a transferência depois do tumulto de segunda-feira, pela manhã, quando um policial militar usou a pistola de choque taser para imobilizar o aluno de 16 anos, que queria ouvir música em volume alto demais durante a aula de matemática e se recusou a obedecer ao professor e, mais tarde, ao diretor Juliano Reckers.

Com medo de novos tumultos envolvendo alunos e policiais militares, no mesmo dia Maísa conseguiu vaga na Escola Municipal Almirante Carvalhal, em Coqueiros, bairro vizinho. “Tive muita sorte de conseguir em cima da hora”, comemorou. Outra mãe, Rosilda de Jesus, 44, disse que a filha Marcieli, de sete anos, não quer ir mais para a aula com medo da polícia. “Estou conversando com ela, dizendo que isto nunca mais vai acontecer e explicando que escola é lugar de estudo e não de confusão. Irei acompanhá-la todos os dias até ela perder o medo”, disse.

Flávio Tin/ND
adolescente agredido taser choque Florianópolis escola
Valquíria e a filha Izabeli chegam para reunião com professores e reclamam da falta de infraestrutura na escola estadual


Os dois casos foram relatados ontem pela manhã, quando as atividades pedagógicas foram substituídas por demorada reunião entre a comunidade escolar e pais de alunos. Polícia Militar e Conselho Tutelar dos Direitos da Criança e do Adolescente foram convidados, mas não enviaram representantes ao encontro.

Foi questionado o preparo da Polícia Militar para agir em ocorrências escolares com discussão, brigas ou comportamento alterado de alunos, como ocorreu segunda-feira durante a aula de matemática em uma classe do 1º ano do ensino médio da unidade da rede estadual de ensino. A imprensa ficou do lado de fora durante as duas horas de reunião. As informações eram repassadas por pais que saiam mais cedo ou que chegavam para resolver problemas de transferências.


Flávio Tin/ND
Adolescente agredido arma choque Florianópolis
Adolescente participará de programas sociais
Rapaz nega consumo de drogas
O aluno que apresentou comportamento inadequado na sala de aula, segunda-feira, é um dos melhores da escola. Porém, o rendimento dele vem caindo há cerca de dois meses. “Já havíamos conversado com a mãe dele sobre isso. Agora, ele vai ter atendimento com assistentes sociais do programa Núcleo de Assistência Social do Morro da Caixa”, disse o diretor Juliano Reckers. O adolescente já faz parte do projeto, na área de esporte. Há seis anos treina judô na Fucas (Fundação Catarinense de Assistência Social). O rapaz contou que naquele dia não havia consumido drogas nem bebida. “Fumei cigarros Gudang, e tomei água”. No entanto, algumas amigas contaram que o colega havia bebido álcool no fim de semana.

Na madrugada de sábado, o adolescente revelou que foi perseguido pela PM porque estava pilotando uma motocicleta Biz, no pastinho do Morro da Caixa, onde mora. Em determinado momento, mostrou as marcas na perna de tiros de borrachas. Na cabeça do rapaz, a PM o perseguia desde sábado. O comandante do 22º BPM, tenente-coronel Mauro da Silveira reafirmou que vai instaurar procedimento investigativo.
Faltam livros, sobram problemas
Pais e professores aproveitaram a oportunidade para falar sobre assuntos gerais da comunidade escolar. Valquíria da Cruz Kremer, 37, mãe de Izabeli, 16, denunciou que a escola está falida. A filha mal deixou a mãe completar a frase, e foi disparando: “Falta tudo lá. O ventilador está enferrujado, sujeito a cair na cabeça dos alunos a qualquer momento, os espelhos do banheiro estão todos pichados, quando chove a sala fica inundada por causa de goteiras, o mato está alto, a escola está cheia de ratos, faltam livros. Enfim, nosso colégio está falido”.

O presidente da APP (Associação de Pais e Professores) Antônio Oliveira, 41, confirmou tudo o que a aluna denunciou, e acrescentou que existem cinco salas interditadas. “O mato não é roçado desde dezembro. A Secretaria de Educação precisa rever a infraestrutura da escola, onde estudam cerca de 800 alunos”. Oliveira disse ainda que é contra o funcionamento misto dos ensinos fundamental e médio no mesmo colégio.
Somente no final da reunião, o diretor Juliano Reckers, 36 anos, foi ao portão da escola para falar com repórteres. Sobre as denúncias da falta de estrutura, ele disse que desde outubro de 2012 encaminhou seis CIs (comunicações internas) para a SDR (Secretaria de Desenvolvimento Regional), solicitando reforma e outros serviços pontuais, mas ainda não obteve resposta.
De acordo com o diretor, a SDR diz que tem R$ 1,5 milhão para reformar a escola, mas ainda não fez nada. Juliano contou que ontem de manhã o secretário estadual de Educação, Eduardo Deschamps, entrou em contato telefônico com ele, e falou que a Polícia Militar agiu de forma violenta ao dar tiros de choque elétrico no garoto, na frente dos colegas, em plena sala de aula. “O secretário me apoiou, falou que eu fiz certo ao chamar o Conselho Tutelar. Foi o conselheiro quem me orientou a acionar a PM”, contou.

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